2005-08-24

Marés do tempo

Momentaneamente ouço o tempo passar,
sim, vai e vem,
lambe-me os sentidos
ou os pés
como uma onda prenhe de espuma a rebentar,
chama por mim, invoca os amigos,
mas não, obrigado,
é sempre a mesma resposta.

Prefiro o vazio à viagem.
De vez em quando molha-me,
convida-me a mergulhar,
nadar e sabes que mais?
aceito,
ganho corpo, forma, sexo,
sou um pequeno pensamento numa matéria sem nexo,
tenho idade,
régua e esquadro à relatividade,
taça de néctar envenenada no peito.
A onda
ou tempo,
traz-me de volta,
e estou novamente na praia em pé ou deitado,
não, não estou, apenas sou,
e entre ondas,
ou marés,
vem o tempo buscar-me com carinho.
Caio na água ou vida,
tenho mágoa ou um bilhete só de ida,
e sou agora outra forma, outra matéria,
sou um réptil venenoso,
sangue na artéria.
Invoco tropas das guaritas
corro a quatro pés ou dois,
sou corpo esquisito.
Estou cansado e a Lua
ou o Mar,
traz-me de volta como a rima num poema,
e leva o corpo consigo na rotação,
no trajecto
ou na espuma que fica quando o resto,
talvez os olhos,
me leva as lágrimas para voar...

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