2005-08-30

Fria noite no corpo

Dorme a fria noite,
ao longe trémulas estrelas resistem
a este meu açoite,
ao orvalho que brota da alma
num soluço de ninguém.

Ao tacto
é gélida a pele
e os dedos refugiam-se,
o tempo que seria
exacto
é, afinal, dele
o vulto do Sol
que dorme em mim.

Amparo pétaldas
de rosas e flores
mortas,
hirtas e sombrias
de sangue manchadas
e isentas de dores,
absortas.

O jardim que plantei
é um canteiro
de almas,
jazentes
e dormentes,
fugazes
e ardentes,
espinhos que se cravam na mão
perfurando o sonho,
aniquilando a ilusão.

Quando o trevo me cobrir
e eu não for mais que húmus,
deixa que me regue
o orvalho que cair
dos espinhos da vida que se segue...

Se eu nascer de novo
e o veneno brotar, ainda,
desta alma que não finda,
foge para longe
e cobre-me com terra negra,
antes que meus olhos possam matar
e minhas mãos,
sujas e gastas,
possam tocar o triste mundo
que são teus olhos
a chorar...

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