2005-07-16

Três tristes filhos do Alvão

(I)

Sento-me.
Espero que os meus olhos vislumbrem
um pouco
mais
esta paisagem.
Enquanto o vento suaviza o calor
e esta mão,
vazia,
tenta em palavras atenuar a dor,
esta parte de mim descansa.
Ouço ao longe alguém,
uma voz que em silêncio me chama
e seduz,
oscilando uma foice
com olhares que inflamam
e um rosto escondido por um capuz.

Atiça-se a água
ou lume
que incendeia e apaga
de uma só vez
a mágoa,
o queixume
da vida, que sofregamente me agarra...

(II)

Queria ser mais que poesia,
agarrar o vento que fustiga
e clamar, antes que nasça o dia
sobre a noite,
este sabor a vida
a que chamam de maresia...
Queria que os meus braços se abrissem,
em ângulo tal
que os amigos, mesmo não sabendo,
no meu coração
em mim
morassem.
Queria que as palavras não fossem apenas minhas,
que não as tivesse que falar
e tratar,
que não fossem como eu
sozinhas...

(III)

As sombras projectam-se no horizonte,
ao longo do olhar
em que repousam vadios
sentimentos,
onde sorrisos anónimos vivem
apenas
para superar este monte.
A luz é já fraca,
balança lentamente na caneta
ao sabor do momento,
recolhem ao leito pequenos raios
e saem de lá,
quase em tormento,
suaves estrelas de papel
que pincelam o meu gasto olhar...
Faz-me companhia Solidão,
baptizei-o assim,
não é meu
creio que de ninguém,
apareceu a meu lado surpreendendo-me
contra o azul esbatido do céu...
Ao vê-lo assim perdido
questiono-me,
será ele apenas eu?
Partiu com as sombras,
desaparece no horizonte em pegadas toscas
deambulando no caminho,
enquanto Solidão busca um novo dono
sento-me no calor do Sol ido
que faz no meu olhar o seu ninho...

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