2005-06-16

Saudade ou não...

Há mais histórias, contos e poemas num minuto de vida do que em todas os livros do mundo.
Escrever o que vejo, como vejo, as pessoas, os locais, cenas e cenários, tudo é imenso, tudo é enorme para poder reduzi-las a meia dúzia de palavras.
Posso tentar, sempre, que cresçam das mãos palavras, frases, tal como saem de meus olhos, mas é difícil.

Tudo é saudade

Tudo me sabe a saudade,
A terra molhada nas unhas e palmas das mãos,
O suor e seiva dos olhos
Que caem e fertilizam os chãos.

Tudo me cheira a saudade,
O corpo, um corpo estranho visto de longe,
Uma qualquer aparição consciente de meus sonhos,
Um beijo de alegria na face,
O calor tórrido, excitante, de névoas sobre a cidade.

Tudo me sabe a saudade,
Cores,
Negros, brancos, amarelos, vermelhos,
Todas as cores de um arco-íris nas faces,
O mesmo olhar, raiado ou não, da tristeza nos espelhos,
Dores,
Partos de um sorriso que teima em não morrer,
Esgares paridos de encontrões no meu peito,
A lama onde me deito,
O sumo da vida que é espesso e ambíguo,
A faca nas costas,
Falsos amigos que induzem ao sofrer
E são o meu consciente declínio
Que espreita em cada casa,
Em cada postigo.

Tudo me mata à saudade,
O aperto de mão, ou um abraço amigo,
A sensação de liberdade
Quando não estou comigo,
O vento, a luz, o escuro, a água
Tudo, mas tudo, é melancolia,
Estrangeirismo do amor afundado na mágoa.

Tudo me lembra saudade,
O vazio, o pleno, a solidão, a multidão,
O sorriso, o chorar, o amar (ai o amar…).

Tudo…
Tudo me faz sorrir,
Caminhar lentamente pela estrada acima,
Calcar merda, afagar uma planta, aspirar olhares meus vindos de outros, outras,
Mirar movimentos e saber quem sou eu,
Apenas eu e mais ninguém,
As faces, membros, olhos, tons, as estrelas do céu,
O negro do incêndio, as flores que germinam para a água dos meus sonhos a cair,
O deserto, o polar, o neutro, o ácido,
O poema, a prosa, o homem, a mulher,
O corpo sozinho que bebe e que outro corpo quer…
Tudo me cheira a poesia,
O ar quente da montanha, o salpico da maresia,
A gota leve que cai da ampulheta do sangue que vivi,
A eterna saudade do conto,
O poema que ainda não escrevi.

Lençóis

Atado em sonhos,
Sulcando novos rumos que desconheço
E que, sinceramente,
Não sei onde vão dar.

Crescem à medida que se enchem de água meus olhos,
Em loucos bailados desconexos
Num aperto de mão e sangue quente.

Memória, fustiga a paz de negro cantada,
Acordes de uma guitarra a amar,
O movimento dos dedos na estrada
Traçando linhas,
Traços longitudinais,
Paralelos, trópicos,
Guias imaginárias que percorrem a saudade.
Lágrimas que brotam
Sob o aperto surdo do coração,
Que emana medo
E consome felicidade.

Orifícios num portal,
Ferro forjado e retorcido
Que enclausura o meu segredo,
Um laço azul e amarelo
Que lidera o meu dormir,
Apaziguando o calor do corpo,
Aquecendo o frio do sofrer
De olhar para o vazio interior,
Perscrutar a parede rugosa,
Ver gotas salinas correndo,
Dançando em rugas movediças,
Saltando cicatrizes do sorrir
Que afluem ao grito inaudível
Desta que é, enfim, maneira de doer.

Respiro…
Involuntário inspirar de estrelas,
Soprando o verde de um jardim
Que nasce na palma da minha mão.
São rosas, senhor!

O canto de uma coruja,
Enquanto escrevo à luz das velas,
Um pensamento que surge e indaga:
- Porque estás assim?
São as incertezas do corpo que some,
Foge a alma para o abrigo sem guarda
Onde espera a vinda do sorrir,
E escreve o sal no vento errante
O sonho que vislumbro antes de dormir.

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