2005-06-17

Da terra

Queria escrever ainda mais.
O "post" anterior soube-me a pouco. Sabe a pouco porque consigo escrever apenas um décima parte do que penso, do que sinto. Que falta me faz um mecanismo que traduza, digitalize, automaticamente, o que se cogita.
Andei a percorrer alguns dos poemas, encontro tantos, quero escrever sobre tantos, escrever tantos mais, mas tenho que parar, respirar, escolher um que me sorri.
Mais um poema. Um que tem rastos de passeios pelo monte, pelas aldeias perdidas, pelas gentes agrestes do campo, do fim do mundo. Da minha gente. Que amo.

Da terra

Cheiro da terra,
Carícia de mão rude e calosa,
Alfabeto decorado entre tojos e medas,
O odor do presunto,
calor do lume brando,
Paro o tempo para dar de comer a esta alma gulosa.

Fumo nos telhados,
Colmos molhados,
Paredes negras de fuligem que sai dos olhos,
Imaginação do lado de lá,
A cidade surge apenas em sonhos,
Caminhos de pedra forrados a merda de gado,
O chiar de rodas,
O aceno inocente de quem em sorrisos se dá.

Saias corridas,
Cortinas de folhos até aos pés,
As chinelas ribombam no pátio como o trovão,
Um pôr do Sol indica se amanhã é dia de monção.

Corre o negro da cinza nas mãos dos putos,
Lousa que grava apenas o riscar do giz,
O nome mal escrito como o sotaque torcido de quem o diz,
Mãos e olhos,
Talvez rostos,
Gente esquecida pelo próprio tempo,
Sorrisos sinceros e bocas que soltam um só sentimento,
Quando os novos por serem velhos para longe vão
Resta à minha gente apenas um momento,
O frio modo de dizer solidão.
Boinas cumprimentam-me,
Sílabas cortadas às palavras saúdam-me,
O sorriso tímido na face apoiada à enxada,
O corpo torcido amparado no muro que ladeia a estrada.

Sempre os mesmos rostos,
Ficam para trás como uma árvore ou um cercado,
Correm os pastos quase negros, quase sós,
Morrem os olhos pela alma,
Mirra a alma por a idade,
traiçoeira,
Não deixar que a forquilha trabalhe na eira.

São cidades fantasmas por aí,
Crescem em percentagens,
números ocos como o ar,
Fantasmas vivos,
farrapos, habitam em noites chuvosas
E dias de calor ou tempestade.

O olhar continua aqui, em mim,
Furtei-o ao último pastor que saudei,
O cajado escreve umas quantas rimas, ou ovelhas,
Perpetua as gentes do campo,
A pureza com que sonhei.

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